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    <title>Blog | UFRJ Analytica</title>
    <link>https://analytica.ufrj.br/blog/</link>
    <description>Artigos dos membros da UFRJ Analytica sobre ciência de dados, inteligência artificial, competições e projetos da liga.</description>
    <language>pt-BR</language>
    <lastBuildDate>Wed, 21 Oct 2026 01:42:56 GMT</lastBuildDate>
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      <title>Revolução do Futebol com Dados</title>
      <link>https://analytica.ufrj.br/blog/revolucao-do-futebol-com-dados/</link>
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      <pubDate>Tue, 20 Oct 2026 23:43:33 GMT</pubDate>
      <description>Em 2009, o Brentford disputava a terceira divisão inglesa, longe da elite do futebol. Com uma gestão inovadora baseada em dados, conhecida como “Moneyball”, o clube se reinventou, alcançou a Premier League e se consolidou entre os principais times da Inglaterra.</description>
      <content:encoded><![CDATA[<blockquote>
<p>OBS: Texto escrito em outubro do ano passado. Pode haver incongruência e/ou informações desatualizadas.</p>
</blockquote>
<p>Em 2009, o Brentford era só mais um dentre os muitos clubes londrinos, jogava a League One (equivalente a Série C do Brasileirão) e estava bem distante dos holofotes do futebol europeu. Naquele momento, a equipe tinha como maior título da história uma segunda divisão, conquistada em 34–35 e não jogava uma primeira divisão desde a década de 40. Hoje, 16 anos depois, a equipe joga a sua quarta temporada consecutiva na Premier League, consolidado como um time de primeira divisão num dos campeonatos mais competitivos do planeta. O segredo para isso? Todo um modelo de gestão baseado em dados, popularmente conhecido como “Moneyball”.</p>
<h2 id="definição">Definição</h2>
<p>Na prática, o termo moneyball refere-se ao uso de métricas para identificar “jogadores subvalorizados” e contratá-los pelo que esperam tornar contratos “abaixo do valor de mercado”. A lógica por trás da estratégia partiria de uma valorização do ativo dentro da própria equipe, o que consequentemente geraria resultados positivos dentro de campo e lucro numa possível venda posterior.</p>
<p>É uma abordagem que independe de grandes orçamentos, mas necessita sobretudo de inteligência, contexto e análise. Ela se apoia no uso de métricas avançadas que capturam nuances do desempenho esportivo muitas vezes ignoradas por avaliações tradicionais.</p>
<h2 id="o-surgimento-no-athletics">O surgimento no Athletics</h2>
<p>O modelo de gestão data-driven no esporte surgiu/se popularizou com o time de beisebol Oakland Athletics, graças ao gerente-geral Billy Beane, ex-jogador de beisebol. Na época, Beane encontra um time fragilizado, com pouco recurso financeiro e técnico e que constantemente perdia jogadores para equipes mais ricas. Foi nesse contexto que começou a busca por alternativas para recuperar a relevância da equipe.</p>
<p>Nesse processo, Beane conheceu Paul DePodesta, um economista graduado em Harvard que, na época, trabalhava como scout para Cleveland e foi contratado por Billy para “corrigir” os Athletics. Paul tinha uma forte crença numa abordagem quantitativa para o esporte, nomeada como Sabermetria (em inglês SABRmetrics, relacionada a Society for American Baseball Research, organização de fomento à pesquisa e divulgação do beisebol)</p>
<p>Dentro dessa metodologia, os “Sabermetricians” buscam entender mais do contexto do jogo/jogador como um todo além de resultados brutos, como rebatidas e corridas, por exemplo. Algumas das métricas utilizadas são a wOBA (média ponderada na base), RC (corridas criadas), BABIP (média de rebatidas de bolas em jogo), WAR (vitórias acima da reposição), etc.</p>
<p>Como resultado dessas novas práticas, naquela temporada o Oakland Athletics alcançou uma sequência histórica de 20 vitórias consecutivas, estabelecendo um recorde da Liga Americana que permaneceu intacto por 15 anos — até ser superado pelas 22 vitórias consecutivas do Cleveland Guardians em 2017. A equipe terminou a temporada regular com uma campanha de 103 vitórias e 59 derrotas, conquistando o título da sua divisão. No entanto, acabou eliminada nos playoffs ao perder para o Minnesota Twins por 3–2.</p>
<p>O modelo de gestão do Athletics foi reconhecido pelas franquias da MLB, com DePodesta sendo posteriormente convocado para assumir a gerência-geral do Los Angeles Dodgers aos 31 anos, na época o quinto mais novo a assumir a posição de GM.</p>
<p>Esse sucesso inspirou não só o livro e o filme “Moneyball”, como também influenciou outros esportes — inclusive o futebol. E é aí que chegamos no Brentford.</p>
<h2 id="o-moneyball-no-brentford">O moneyball no Brentford</h2>
<p>No Brentford, essa mentalidade surgiu com Matthew Benham, dono da Smartodds, uma empresa que, com modelos matemáticos, buscava ajudar casas de apostas a definirem odds justas. Em 2009, Benham, que já torcia para a equipe, ampliou sua colaboração financeira no Brentford que, naquele momento, era um time possuído pelos próprios torcedores. Em 2012, chegou o ponto final dessa transição, com Benham assumindo oficialmente o controle da equipe.</p>
<p>Uma das primeiras mudanças drásticas promovidas por Benham foi a aposta em profissionais com um olhar puramente analítico, mesmo que não tivessem conhecimento prévio do futebol tradicional. Isso marcou uma ruptura com o modelo convencional de scouting baseado apenas na observação subjetiva de técnicos e olheiros. Ao mesmo tempo, o clube tomou a decisão controversa de extinguir suas categorias de base, focando seus recursos em identificar talentos já formados em outros lugares, mas que se encaixassem no perfil estatístico desejado.</p>
<p>Para encontrar talentos que se encaixem no “perfil Brentford”, a equipe utiliza estatísticas avançadas dentro do contexto do futebol, como por exemplo gols esperados, passes em progressão, pré-assistências, valor com bola (OBV), ameaça esperada (xT) etc.</p>
<blockquote>
<p>Exemplo: Um zagueiro com alto valor com bola e passes progressivos acima da média, mas baixa eficiência defensiva, indica que ele precisa de um companheiro de zaga mais defensivo para compensar suas fragilidades ou que pode ser mais produtivo atuando como volante, onde sua qualidade na construção é melhor aproveitada e suas falhas defensivas são menos expostas.</p>
</blockquote>
<p>Partindo dessa visão, o Brentford cria um ambiente ideal para o desenvolvimento dos jogadores. Eles encontram um clube de menor expressão, com menor pressão da torcida, diferente do que enfrentariam em equipes gigantes como Liverpool ou Manchester United, e um contexto favorável para seu crescimento e rendimento.</p>
<p>Benham também ressalta que a eficácia do sistema baseado em dados no futebol depende fundamentalmente da presença de profissionais altamente qualificados. Ele enfatiza que os dados, por mais abrangentes e sofisticados que sejam, servem como ferramentas auxiliares para a tomada de decisões, e não como elementos decisórios autônomos.</p>
<h2 id="resultados-em-campo">Resultados em campo</h2>
<p><img src="http://localhost:8080/api/blog/public/imagens/cmvhbkh1e0005pd0cpclg0c9k" alt="descreva a imagem" loading="lazy" decoding="async"></p>
<p>Fonte: Transfermarkt</p>
<p>Desde a chegada de Benham em 2009 e a sua posse por completo em 2012, a equipe conseguiu se consolidar e ter bons desempenhos em todos os anos, apesar de sempre não estar entre os maiores gastadores dos torneios que disputa.</p>
<p>Na terceira divisão, a equipe sempre ficou na metade de cima da tabela e bateu na trave do acesso em 2012/13, conseguindo na temporada posterior. Na segunda divisão, a mesma tendência: surpreendentemente chega nos playoffs no primeiro ano, metade superior por 4 anos, bate na trave em 19/20 e sobe em 20/21. Na Premier League o desempenho oscilou, processo natural devido a disparidade econômica entre as equipes de primeira e segunda divisão.</p>
<p>Um exemplo evidente disso é que, na Premier League, as piores equipes ganham entre 100 e 110 milhões de libras de direitos televisivos, enquanto na Championship as melhores recebem algo próximo dos cinco milhões de libras. Esportivamente, o impacto também é percebido, visto que nas últimas duas temporadas, nenhum dos 6 times que subiram de divisão conseguiu se manter.</p>
<p>Dentro desse contexto, permanecer na Premier já é uma vitória para o Brentford, que vem se consolidando como um clube de Premier League e quebrando o ciclo de ‘clubes ioiô’ que sobem e caem imediatamente.</p>
<h2 id="o-retorno-financeiro">O retorno financeiro</h2>
<p>De acordo com o Transfermarkt, dentre as 5 vendas mais caras da história da equipe, todas ocorreram nos últimos 5 anos, resultando num total de 206 milhões de euros para o cofre da equipe. Em contrapartida, o Brentford investiu apenas 24,57 milhões para adquirir esses jogadores, resultando num lucro total de 181,43 milhões de euros e num lucro médio de aproximadamente 738% por negociação. Aqui estão as cinco principais negociações que contribuíram para esse sucesso financeiro:</p>
<p>Bryan Mbeumo — Comprado por 6.5M€ junto ao Troyes e vendido por 75M€ ao Manchester United (1054%)
Ivan Toney — Comprado por 5.6M€ junto ao Peterborough e vendido por 42M€ ao Al-Ahli (650%)
Ollie Watkins — Comprado por 7.22M€ junto ao Exeter City e vendido por 34M€ ao Aston Villa (371%)
David Raya — Comprado por 3.55M€ junto ao Blackburn e vendido por 31.9M€ ao Arsenal (798%)
Saïd Benrahma — Comprado por 1.7M€ junto ao Nice e vendido por 23.1M€ ao West Ham (1259%)
Além disso, no momento em que esse texto é escrito, o Brentford encaminha a venda do seu destaque Yoane Wissa para o Newcastle por 57.5 milhões de euros, no que seria a segunda maior venda da história. Após adquiri-lo na temporada 20–21 junto ao Lorient por 10 milhões de euros, o Brentford sairia dessa negociação com um lucro de 536%, comparado ao que foi investido.</p>
<p>A equipe, porém, precisou adotar uma postura mais “gastadora” nas últimas temporadas, devido ao altíssimo nível de competitividade da liga inglesa, considerada por muitos a maior/melhor liga doméstica do planeta. Esse retorno esportivo é explicado muito pelo alto investimento financeiro e um exemplo disso está nessa última janela de transferências (25/26). Dentre os 10 clubes que mais gastaram, 9 são da Premier League (um deles sendo o Sunderland, recém-promovido) e das 10 transferências mais caras, 7 são aquisições de clubes ingleses.</p>
<p>Em 4 anos de Premier League, o Brentford conseguiu fazer uma janela lucrativa apenas neste início de 25/26, saindo com um superávit de 56.6M€. Nas temporadas anteriores, a equipe saiu em déficit, tendo investido 37.2M€ em 21/22, 45.65M€ em 22/23, 62.1M€ em 23/24 e 23.9M€ em 24/25.</p>
<h2 id="outros-casos-de-gestão-inteligente">Outros casos de gestão inteligente</h2>
<p>Conforme o tempo vai avançando, as tecnologias aprimorando e um futebol cada vez mais competitivo, esse tipo de metodologia é cada vez mais adotado, visto todo o retorno financeiro e técnico que ele traz. Dentre alguns exemplos de Moneyball, acaba que o mais famoso é o Midtjylland, clube considerado irmão do Brentford, visto que possuíram os mesmos donos*. O clube funcionou como um laboratório do clube inglês, utilizando dados incansavelmente, até em rotinas em bola parada. O resultado é comprovado com troféus, visto que desde 2014/15, a equipe conquistou 4 ligas e 2 copas, se consolidando como um dos grandes do cenário dinamarques.</p>
<p>Por outro lado, existem times que, apesar de fugirem de uma gestão centrada em dados, são referências de mercado inteligente, temos alguns exemplos:</p>
<p>Eintracht Frankfurt: Se destacou por criar um ambiente favorável para o desenvolvimento de centroavantes. Das 5 maiores vendas do clube, 5 foram de centroavantes e as 5 ocorreram nos últimos 6 anos, gerando um total de 370 milhões de euros após um investimento de 65,84 milhões (sendo 2 dessas transferências gratuitas), criando um lucro de 461%.
Brighton: Alcançou relevância por garimpar o mercado sul-americano, contratando jovens promessas e lhes dando um ambiente favorável para adaptação ao futebol europeu. Sua venda mais cara foi de Moisés Caicedo, exemplo notório desse estilo de negociação, que gerou 87.8M€ de lucro para o clube.
Shakhtar Donetsk: Se destacou por atrair diversos brasileiros promissores, dando tempo, paciência e facilitando a integração com o futebol europeu. A última venda de destaque foi de Kevin para o Fulham, onde conseguiram um lucro de 25.2M€ com um jogador que só esteve no clube por um pouco mais de um ano e meio.
Conclusão
Em um futebol onde o dinheiro reina, a inteligência começa a se tornar o diferencial competitivo. O Brentford prova que clubes com menos recursos podem competir com os gigantes, desde que saibam onde procurar valor. Se o presente ainda pertence aos que gastam mais, talvez o futuro pertença aos que gastam melhor.</p>
<p>Se clubes como o Brentford conseguem desafiar gigantes com menos recursos, talvez a pergunta que fique não seja se esse tipo de gestão funciona, mas sim quando todos irão adotá-la.</p>
<ul>
<li>Benham vendeu sua parte e deixou de ser sócio majoritário do Mitdjylland em 23/24. Ankersen, ex-braço direito de Benham e diretor do Brentford durante a implementação do Moneyball, era chairman do clube dinamarquês, mas se distanciou do mesmo na temporada 21/22.</li>
</ul>]]></content:encoded>
      <dc:creator>Leonardo da Silva Faria</dc:creator>
      <dc:creator>Claudio Almeida Santos Junior</dc:creator>
      <category>dados</category>
      <category>futebol</category>
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